A armadilha da acessibilidade: por que meu sucesso “off-grid (não exatamente)” destaca uma crise iminente para os mais vulneráveis
Quando me mudei de Toronto para Natick em 2022 para liderar o desenvolvimento de microrredes comerciais na Schneider Electric, eu não imaginava que construiria uma na minha casa imediatamente. O que me motivou foi o “choque na conta”.
No subúrbio de Toronto onde eu morava, a conta mensal de eletricidade + gás para uma casa comparável ficava entre CAD 300 e CAD 350. No subúrbio de Boston, em Natick, o mesmo nível de conforto exigia USD 1.000 a USD 1.500. Para combater isso, usei subsídios estaduais, créditos ITC e programas Mass Save para transformar minha casa em um laboratório de microrrede totalmente elétrica: bombas de calor de alta eficiência para clima frio, eletrodomésticos totalmente elétricos, sistema robusto de solar + armazenamento, distribuição/zoneamento inteligente para otimização de carga e melhorias na envoltória da edificação próximas ao padrão Passive House. O gás permanece como backup auxiliar para episódios raros abaixo de -10 °C, quando a eficiência da bomba de calor cai.
Meu objetivo? Acessibilidade em primeiro lugar; resiliência como bônus. Alcancei contas líquidas de $0 nos meses de pico solar. Mas, três anos depois, mesmo com eficiência extrema e autogeração, meu piso “zero” subiu para $220 fora de ponta e vai continuar aumentando.
Como engenheiro nesse setor, encontrei duas barreiras estruturais inquebráveis:
A armadilha dos custos fixos: A redução do meu uso da rede (e de outros que conseguem arcar com o CapEx inicial) não reduz os enormes custos fixos de T&D (transmissão e distribuição); ela apenas os redistribui. As tarifas de entrega sobem todos os anos para financiar infraestrutura envelhecida e novas cargas, corroendo o ROI dos investimentos individuais.
A armadilha do preço marginal: Extremos recentes, como a Winter Storm Fern, acionaram preços de liquidação altíssimos por meio de usinas de ponta a óleo/GNL. No mercado da ISO-NE, o elétron mais caro define a tarifa para todos — inclusive para proprietários de microrredes.
Para mim, isso é frustração de ROI. Para os mais vulneráveis, é uma armadilha de acessibilidade; a crise moral da nossa transição.
Dados preocupantes
A inadimplência residencial em gás/eletricidade ultrapassou US$ 832 milhões no fim de 2024 (aproximadamente 75% de aumento em cinco anos), com média de ~US$ 997 por domicílio inadimplente.
O peso médio do custo de energia no estado é de aproximadamente 3 a 6%, mas famílias de baixa renda enfrentam ~10%, com algumas áreas/bairros chegando a 31%; uma escolha literal entre “aquecer a casa ou comer”.
O imposto da infraestrutura herdada: Quem não consegue investir antecipadamente ~US$ 40 mil+ em solar/armazenamento assume uma parcela crescente dos custos fixos, criando uma rede de dois níveis: os “opt-outers” resilientes (que conseguem se afastar parcialmente da rede) vs. quem financia a infraestrutura de ontem.
O caminho a seguir
Não podemos descarbonizar às custas da equidade. Soluções temporárias (moratórias de inverno, reduções recentes nas contas de fev. a mar. de 2026) não são suficientes; precisamos de reforma estrutural:
Desacoplar a infraestrutura de T&D do consumo volumétrico: Tratar como uma rodovia pública, e não como um pedágio por uso que pune quem consome menos.
Migrar para contratação estável de longo prazo: Usar um modelo no estilo de Ontario para proteger as contas da volatilidade dos combustíveis.
Programas de equidade financiados pelas utilities/concessionárias: Transferir o CapEx de eficiência/eletrificação para as concessionárias, garantindo economia líquida mensal desde o primeiro dia para todos.
A descarbonização é essencial, mas a acessibilidade é a base de uma transição justa. Até rompermos a armadilha dos custos fixos, não estaremos construindo a rede do futuro; estaremos aprofundando a crise de hoje.
Quais mudanças estruturais você viu (ou defendeu) na sua região? Como tornar microrredes e eletrificação acessíveis sem impor encargos regressivos?